A Cartomante Machado de Assis - Resumo do livro resenha

A Cartomante Machado de Assis - Resumo do livro resenha
Resumo do Livro "A Cartomante"

O conto apresenta de forma bem marcada as três partes fundamentais da narrativa:

Introdução

Embora a história já se inicie durante o relacionamento adúltero entre Rita e Camilo, o narrador, após alguns parágrafos, apresenta em flashback o início dessa relação, quem são os personagens envolvidos, como se conheceram etc.
Ao final desse flashback o narrador nos conta que Camilo recebera uma carta anônima que afirmava que a aventura dos amantes já era conhecida por todos.
Camilo decide, então, rarear suas visitas à casa de Vilela. Essa decisão é ignorada por Rita que, insegura, passa a frequentar uma cartomante em busca de respostas. Essa cartomante, por fim, acaba por restituir-lhe a confiança (início da narrativa).

Desenvolvimento

Camilo ainda recebe mais duas ou três cartas anônimas. Rita assegura-lhe que deveriam ser de algum pretendente enciumado, mas ficará alerta se alguma carta daquele tipo fosse endereçada à sua casa. Passado um tempo, Camilo recebe um bilhete curto e imperativo de Vilela: “Vem já, já, à nossa casa; preciso falar-te sem demora.”
Pressente um drama: o marido descobrira tudo e o caso seria de morte. Assustado, com medo, dirige-se à casa de Vilela. Porém, durante o trajeto, seu tílburi fica parado bem em frente à casa da cartomante.
Depois de muito hesitar, por estar inseguro e ansioso, Camilo decide consultá-la. A cartomante assegura-lhe que nada de mal acontecerá aos amantes, pois o “terceiro” a tudo ignora. Camilo, confiante e tranquilo, parte para a casa de Vilela.

Desfecho

Ao entrar na casa de Vilela, encontra o amigo com “as feições descompostas” e, assombrado, vê Rita, morta e ensanguentada. Em seguida, recebe dois tiros de revólver e cai morto ao chão.

Gênero do texto e forma de expressão literária

Gênero: narrativo, visto que narra os acontecimentos da vida dos personagens durante um determinado período, incluindo representações do mundo cotidiano mais individualizado e pessoal.
Subgênero: conto, por se tratar de uma narrativa mais curta, centrada em um episódio específico da vida dos personagens.
Forma de expressão literária: prosa, pois o texto foi escrito sem divisões rítmicas intencionais e sem grandes preocupações com métrica, rimas, aliterações e outros elementos sonoros.

Tema e ideias transmitidas

Embora a temática do adultério seja bem clara no texto, em uma leitura mais atenta percebe-se que o conto prioriza a questão da contradição humana, por meio do embate razão X emoção, ceticismo X credulidade.
Desde o início, o narrador ressalta o perfil cético, racional e prático do personagem Camilo em relação “às coisas do além”, quando de suas críticas à inocência de Rita ao acreditar em cartas, cartomantes e destino.
Porém, ao se deparar com uma situação que o fragiliza, causando-lhe medo e insegurança, o antes convicto “homem sério” não só busca amparo e serenidade nas cartas, como acaba por acreditar piamente em seu veredicto, partindo de peito aberto para os dois tiros que o esperavam.
O narrador, mesmo apresentando Camilo como homem que desdenha a credulidade de Rita, ao longo do conto lança vários comentários que podem antecipar os acontecimentos. No entanto, tais passagens, por serem muito sutis, talvez passem despercebidas pela maioria dos leitores, mas demonstram o espírito fraco de Camilo.
“Camilo preferiu não ser nada, até que a mãe lhe arranjou um emprego público.”
“Camilo era um ingênuo na vida moral e prática. Faltava-lhe tanto a ação do tempo, como os óculos de cristal, que a natureza põe no berço de alguns para adiantar os anos.
Nem experiência, nem intuição.”
ASSIS, Machado de. “A cartomante”. In: Várias histórias.
A falta de experiência e a negação de sua intuição acabam por traçar-lhe o fim trágico.
A grande jogada do texto se dá na medida em que a citação de Shakespeare em Homlet dá o tom da narrativa, pois não só a inicia, como retoma ao texto por duas vezes (na fala de Rita e na memória de Camilo) e justifica o desfecho.
Afinal, quais seriam essas coisas que existem entre o céu e a terra que nem nossa filosofia pode sonhar? A contradição humana? A credulidade no invisível? A racionalidade que cega? As grandes paixões? O inesperado das situações?
Nem Shakespeare ousaria responder…

Análise da obra

O conto é interessante, principalmente, por apresentar um anticlímax, ou seja, o desenrolar da narrativa aponta para um determinado desfecho, mas somos surpreendidos pelo oposto da situação anunciada. Muito desse efeito é produzido por um perspicaz narrador onisciente, que manipula a narrativa, os personagens e o leitor.
Mesmo se tratando de uma narrativa curta, o texto apresenta quase todas as marcas estilísticas machadianas: a metalinguagem, a intertextualidade, a paródia, o humor cáustico e permanente, a ironia sutil e a personificação.
O recurso das digressões, tão presente em seus romances, é aqui ignorado em razão da concisão do texto.
A partir de uma citação shakespeariana, o autor inicia o conto utilizando o recurso da intertextualidade: ‘‘Hamlet observa a Horácio que há mais coisas no céu e na terra do que sonha a nossa filosofia”. Mas esse recurso configura-se uma armadilha para o leitor, pois, à primeira vista, parece se refenr somente à fala ingênua de Rita: “Foi então que ela, sem saber que traduzia Hamlet em vulgar, disse-lhe que havia muita cousa misteriosa e verdadeira neste mundo”. No entanto, ao final, o que está em jogo é o comportamento imprevisível do próprio Camilo que, com medo e já desesperado, procura a cartomante, negando todo seu ceticismo e, ao sair, crédulo, feliz e despreocupado, encaminha-se para a morte.
Quando numa obra somos levados a refletir, junto com o narrador, sobre a própria escritura da linguagem literária, estamos em plena atividade metalinguística. A partir desse recurso passamos da posição de leitor passivo para a de leitor incluso, ou seja, aquele com o qual o narrador estabelece diálogos sobre o seu fazer literário, afastando-se nesses momentos de aspectos exclusivamente do enredo: ‘‘Vilela, Camilo e Rita, três nomes, uma aventura e nenhuma explicação das origens. Vamos a ela”.
Nesse momento de “conversa com o leitor” o narrador, além de comentar que ainda não havia narrado o passado dos três personagens envolvidos, alerta-o que agora irá fazê-lo e convida-o para acompanhá-lo.
A partir daí a narração, que se mostrava cronológica e linear, será interrompida por um flashback que ocupará sete parágrafos, iniciando-se após o trecho “Vamos a ela” até o final do parágrafo “Um dia porém, recebeu Camilo…”.
O uso da personificação (atribuição de sentimentos, ações humanas a seres inanimados ou a conceitos abstratos) no relato enriquece o texto e aproxima o leitor da cena, uma vez que esta concretização do abstrato garante uma compreensão “visível” do que se quer demonstrar. Nas seguintes passagens o uso da personificação é recorrente:
“… era a ideia de ouvir a cartomante, que lhe passava ao longe, muito longe, com vastas asas cinzentas; desapareceu, reapareceu, e tornou a esvair-se no cérebro; mas daí a pouco moveu outra vez as asas, mais perto, fazendo uns giros concêntricos…”
“A casa olhava para ele.”
“… o mistério empolgava-o com as unhas de ferro”
“… onde a água e o céu dão um abraço infinito.”
ASSIS, Machado de. “A cartomante”. In: Várias histórias.

Conclusão

Machado de Assis, no conto A cartomante, constrói um narrador que se coloca de maneira superior em relação aos personagens e, ao mesmo tempo, filtra a visão que se possa ter dos mesmos, ou seja, manipula tanto os personagens como os leitores.
O mestre Machado interessa-se pelas contradições humanas e pela sondagem dos sentimentos e ideias íntimas de seus personagens. Sendo assim, os acontecimentos e o cenário só terão relevância, caso provoquem reações psicológicas e comportamentais nos personagens envolvidos na trama.
Por: Paulo Magno Torres

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